segunda-feira, 26 de maio de 2008

VIOLÊNCIA NAS SALAS DE AULA

Bater, insultar, empurrar, humilhar não são brincadeiras de criança. Sobretudo quando se tornam atitudes rotineiras e consecutivas em que os agressores são sempre os mesmos e as vítimas também. Os americanos chamaram “bullying” a este fenômeno de violência.

O “bullying” é uma agressão física, verbal e emocional quase diária, que inclui insultos ou até assaltos. Trata-se de um fenômeno mundial que existe nas escolas desde o jardim-de-infância e atinge o auge no primeiro e segundo ano do Ensino Médio. No Brasil a palavra ainda é desconhecida para muitos, mas nos Estados Unidos o “bullying” atingiu proporções preocupantes.

No Brasil, o “bullying” pode ter outros nomes como violência ou indisciplina, mas para a professora doutora em educação escolar da Uniararas, Cláudia Cristina Fiório Guilherme, todos estes termos podem ser resumidos como “incivilidade”. Há 50 anos o aluno disciplinado era o que obedecia sem responder, sem contrariar ou argumentar, isto porque nesta época quem freqüentava as escolas eram crianças de classe alta ou média alta, com uma criação diferente. A situação se agravou a partir da década de 80, quando a violência na sala de aula começa a chamar mais atenção. “As portas foram abertas para uma classe social menos favorecida, e o comportamento exigido foi o mesmo, não se repensou os valores para se adequar a essa nova clientela, que precisava de atenção diferenciada”, afirma Cláudia.

O termo “incivilidade” aponta para uma perda dos conceitos de convivência social, sejam: morais, estéticos ou políticos. São valores que não são trabalhados nem na família, nem em sala de aula. “Há incivilidades pequenas, como uma agressão verbal, ou graves, como uma agressão física, mas o que muda é apenas a gravidade, pois o fundo é o mesmo: a intolerância social”.

Não aceitar o outro é apenas o reflexo de uma civilização globalizada e capitalista, que tem como característica marcante a diferença social. A violência é apenas uma resposta à condição social desigual em que se vive, na qual o consumismo é engrandecido. “Se uma criança vê um colega com um tênis mais bonito e ninguém o ensinou sobre valores morais, por exemplo, ele vai querer bater no colega e roubar o tênis”. Apelidar o próximo já é um ato de violência e um ato de não aceitação do que é diferente.

De acordo com a coordenadora e professora do COC Rio Claro Maristela de Carvalho Henriques, a aparência física parece ser o que desencadeia mais atitudes de “bullying”. Mas não há regras. Espelhando-se no que está mais próximo delas, como imagens de televisão, modelos de revista e senso comum entre os ‘coleguinhas’, os padrões de beleza e moda influenciam e muito nas atitudes e opiniões de crianças e adolescentes. “Casos de anorexia surgem muito disto, de tanto receberem apelidos maldosos, muitos sofrem distúrbios alimentares”, comenta Maristela.

A pedagoga também atenta para um outro tipo de violência, que por vezes fica implícito, o jovem que consome drogas pratica a auto-violência. Hoje 70% dos jovens de uma universidade particular usam algum tipo de drogas, lícitas ou ilícitas. Ele não violenta o próximo, mas violenta a si próprio.


VIVENCIANDO

Baixo rendimento nos estudos, falta de vontade de ir às aulas, anorexia e baixa auto-estima são apenas alguns dos problemas acarretados pelo “bullying”, que ocorre tanto em escolas, como faculdades, local de trabalho, vizinhança ou qualquer forma de convívio social.

Qualquer criança ou adolescente pode ser vítima, mas aquelas que são diferentes, ou não se “encaixam”, são normalmente as mais martirizadas.

Crianças com deficiências físicas também podem ser alvo dos “bullies” (agressores), assim como aquelas que são muito bonitas e populares na escola. Diferenças étnicas, religiosas, classes sociais, gosto musical são apenas algumas das motivações.

W.S.S., 16 anos, veio de Santo Antonio de Jesus (BA) há quatro anos e desde que chegou o apelido na sala foi unânime: ‘baiano’. “Desde a sétima série me colocaram o apelido e me zoam pelo meu sotaque, prefiro nem ligar, se implicar ai que o apelido pega mesmo. Algumas brincadeiras são sem graça”, de acordo com o jovem. Implicar com as provocações pode torná-las piores e mais freqüentes.

Já L.B., de 14 anos, conta que só uma vez sofreu alguma “zoação” na sala de aula, mas que vê isso acontecer freqüentemente com outros colegas. “É muito chato quando isso acontece, porque tem gente que não se sente bem”. O “bullying” acaba por trazer malefícios tanto para quem os sofre, tanto para quem os presencia.

CASOS EXTREMOS
A agressão, por muitas vezes velada e repetitiva, traz à tona graves problemas de depressão e até mesmo suicídio. De acordo com o livro “A sala de aula sem bullying” de Allan L. Beane, 30% dos suicídios juvenis são causados por “bullying”. No Brasil, já somam inúmeros casos de adolescentes que invadem escolas armados para se “vingar” de algum “bullie”.

Nos anos 90, os Estados Unidos vivenciaram uma epidemia de tiroteios em escolas (dos quais o mais notório foi o massacre de Columbine). Muitas das crianças por trás destes tiroteios afirmavam serem vítimas de “bullies” e que somente haviam recorrido à violência depois que a administração da escola havia falhado repetidamente em intervir.

Em Rio Claro, recentemente, registrou-se o caso de duas estudantes que foram covardemente agredidas a socos e pontapés por aproximadamente 30 meninas, no intervalo entre uma aula e outra, em uma escola pública da região central. De acordo com a versão policial, a agressão teria sido motivada pelas roupas que as vítimas usavam.

“Infelizmente só nos damos conta da situação de violência entre as crianças quando presenciamos uma cena em nossa rotina de trabalho. Principalmente o que nos estarrece é que essa questão é um dos aspectos mais trabalhados no convívio social”, comenta a psicóloga Etienne Bôer Benetti, integrante do projeto Casa das Crianças.

A professora de geografia Fátima Hilário e a professora de português Sumaia Elias Abrahão Fuzeto, lecionam em escolas particulares e públicas e afirmam que a violência física é maior nas escolas públicas, mas que em escolas particulares percebe-se uma violência verbal grande. “O apoio da família em muitos casos é pouco ou inexistente, a escola acaba fazendo um papel que não é dela, e com isso a violência só tende a aumentar”, diz Sumaia.

PROJETO
O colégio COC, Rio Claro, desenvolveu um projeto intensivo para tratar o “bullying” na sala de aula, através de palestras, debates, relatórios, cartazes e pesquisas. “Trabalhamos o tema quase o ano todo, ano passado”, conta a professora de matemática Mary da Freiria Teizen. Agregando todas as matérias, o projeto trabalhou as diferenças sociais, étnicas, necessidades especiais e o preconceito em suas diversas formas.

“Os alunos foram incentivados a receber bem quem vem de fora, para se enturmar na sala”, conta Mary, que afirma haver uma grande dificuldade de adaptação, principalmente de alunos que vêm de outras escolas ou cidades.

O projeto foi desenvolvido por alunos do sexto ao nono ano do Ensino Fundamental; houve uma palestra com uma psicóloga sobre como se comportar em sala de aula; produção de cartazes exaltando as virtudes dos amigos, professores e pais; uma pesquisa sobre o preconceito religioso em outros países; e um debate entre os alunos com o intuito de que cada um se colocasse no lugar do colega.

“Depois das atividades percebemos que melhorou e muito o tratamento em sala de aula, é muito difícil vê-los chamar por apelido, sempre exigimos que seja tratado pelo nome de cada um. É um projeto que deveria ser feito em todas as escolas”, acrescenta Mary.




Z FOTOS

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Prof. Dra. Claudia Cristina Fiório Guilherme


Bullying

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