terça-feira, 13 de maio de 2008

Hospital “Bezerra de Menezes” ganha novo perfil

Dia 18 de maio é o dia mundial da Luta Antimanicomial, que prevê a extinção dos hospitais psiquiátricos e reformulação no tratamento da saúde mental.

REGIÃO

Em meio a tantas reformas legais e administrativas discutidas em todo o país, há uma que passa quase despercebida pelos que não estão na mesa de debates: a reforma no sistema de atendimento psiquiátrico brasileiro. Apesar de lenta, ela tem avançado, e interessa diretamente aos brasileiros que buscam auxílio na rede pública de saúde, podendo alterar radicalmente o sistema de atendimento.

O governo brasileiro fez uma grande economia nos últimos 18 anos ao fechar cerca de 80% dos leitos psiquiátricos - de 120 mil leitos em 1989 para 38,8 mil em 2007, economia esta que não tem sido aplicada no atendimento a doentes mentais. Um estudo da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) aponta que, neste período, houve corte de dois terços da verba - o equivalente hoje a cerca de R$ 2 bilhões por ano. O investimento, que era 5,8% do orçamento do Ministério da Saúde em 1995, caiu para 2,3%, em média, nesta década. Em 2006, a saúde mental recebeu R$ 943, 2,04% do orçamento do ministério.

A perda de investimentos, associada à redução dos leitos, gera a desassistência que pode ser observada nas longas filas de espera, no crescente número de doentes mentais vagando pelas ruas e também nas prisões.

O Ministério da Saúde contesta e diz que não houve redução de verbas, mas admite que precisaria ampliar os gastos anuais em saúde mental para, no mínimo, 5% de seu orçamento - o equivalente a R$ 2,3 bilhões hoje (R$ 1,3 bilhão a mais por ano).

LOCAL

O interior de São Paulo sofre muito com a desassistência aos doentes mentais. Na região, apenas duas casas de saúde mental estão abertas e atuantes: “Bezerra de Menezes”, em Rio Claro e “Clínica Antônio Luiz Sayão”, em Araras. De acordo com a assistente social Léa de Oliveira Alvez Cruz, houve uma grande mudança nas formas de atuação dos hospitais psiquiátricos no país. Ela, que trabalha há 27 no “Bezerra”, acompanhou de perto esta renovação no regimento dos hospitais.

Hoje não se menciona mais a palavra “manicômio”, assemelhando-o a uma prisão ou um depósito. O “Bezerra” trabalha organizadamente, sob forte fiscalização, as internações não são mais feitas na porta do hospital e o acompanhamento da família é imprescindível. “Para a pessoa ser internada tem que procurar primeiro um serviço extra-hospitalar, como um CAPS ou Pronto Socorro, e se o médico achar que há necessidade ele encaminha para a central em Piracicaba, que avalia o caso e se necessário o paciente é internado, e ainda aqui no hospital passa por mais uma avaliação do plantonista”, afirma Léa.

Além das formas de internação mais rígidas, o hospital é utilizado apenas em medida de emergência, para amenizar um quadro de surto ou crise. “O máximo que um paciente pode ficar hoje no hospital é três meses, a internação é em último caso, quando é necessário um tratamento intensivo e recluso, até que se acerte o medicamento adequado e o paciente esteja em condições de voltar para casa”, conta Numas Tebaldi, assessor de diretoria da Casa de Saúde “Bezerra de Menezes”.

A idéia de manter os doentes reclusos também é história do passado. No “Bezerra” os pacientes têm acesso ao telefone, recebem visitas familiares e são assistidos por diversos profissionais; o trabalho realizado é completo. São 135 funcionários, entre eles, 13 médicos, três assistentes sociais, três psicólogas, três terapêutas ocupacionais, um dentista, uma nutricionista, um farmacêutico, seis enfermeiros-padrão e 42 enfermeiros técnicos e auxiliares. Tudo subdividido em equipes: “os pacientes são vistos diariamente por todas as equipes, inclusive aos sábados e domingos, e tudo é anotado em prontuários e fiscalizado”, diz Léa.

O hospital foi apontado como referência no tratamento de doentes mentais, ao todo, são 195 vagas pelo SUS e cinco particulares, um número pequeno para atender a demanda, o hospital está sempre com a capacidade máxima. Com o fechamento do Hospital Espírita Dr. Cesário Motta Júnior, de Piracicaba em 2001, a procura é crescente.

De acordo com dados do hospital o número de alcoolistas e drogaditos têm aumentado consideravelmente, e o grande problema que vem sendo enfrentado é a falta de espaço físico. Em março deste ano foram 106 internações, em sua maior parte homens, solteiros, entre 30 e 40 anos. Ressaltando que o “Bezerra” atende apenas maiores de 18 anos, apesar da grande procura para internação de menores.


Diagnóstico
Março
Psicóticos (masculino)
28
Psicóticos (feminino)
25
Alcoolistas (masculino)
34
Alcoolistas (feminino)
2
Drogaditos (masculino)
10
Drogaditos (feminino)
7

O “Bezerra” atende 26 cidades do município, entre elas, Analândia, Cordeirópolis, Corumbataí, Ipeúna, Itirapina e Santa Gertrudes. “O Sayão é um hospital mais para moradores, apenas o Bezerra tem maior rotatividade, são pouquíssimos os moradores aqui, e os que estão vieram com o fechamento do hospital de Piracicaba, não são aceitos mais moradores”, diz Numas.

Cidades que mais internam
Nº de internações
Município
23
Piracicaba e Rio Claro
22
Limeira
4
Araras e São Pedro

Não aceitar mais moradores, foi uma decisão vinda do governo, muitas famílias escondiam os doentes em casas de saúde, o que está tentando ser evitado. Algumas chegavam a dar endereço e telefones falsos para que não fosse possível o contato, a intenção era abandoná-los, pois muitas famílias não têm estrutura e suporte para possibilitar os cuidados especiais que um doente mental exige.

“Queremos sempre que a família esteja presente, que venha visitar, que se interesse pela situação, mas nem sempre é o que acontece. Casos em que a família participa são mais fáceis de ser recuperados”, diz Lea.
ATIVIDADES

O foco das equipes de profissionais é sempre o paciente, o intuito é deixá-los ocupados, trabalhar o corpo e a mente, evitar que fiquem no ócio. Para isso são feitas oficinas de marcenaria, artesanato, culinária, academia de ginástica, horta, além de atividades extras como caminhadas diárias, visitas ao Shopping, Boulevard e Lago azul.

Um dos grandes destaques dos trabalhos é o Carnaval, os internos abrem o carnaval da cidade, com desfile nas ruas próximas ao hospital. As fantasias são feitas pelos próprios pacientes, em alguns casos até a letra do samba-enredo foi feita por eles. “Muitos dos pacientes que passam pelas oficinas descobrem uma aptidão, e continuam fazendo quando saem daqui”, afirma Léa.


DIFICULDADES

O fechamento de hospitais psiquiátricos e o corte na verba para manutenção mostram sérias dificuldades enfrentadas pelas poucas casas de saúde que restaram. Hoje, o “Bezerra” recebe R$34,95 por diária, para cada paciente, verba que não supre nem metade dos gastos. O restante fica por conta de doações e verba liberada por prefeituras e voluntários. De acordo com o assessor de diretoria há também uma pactuação com o Estado, que fornece benefícios diretos ao paciente, como verba para medicamentos diferenciados, materiais para oficinas terapêuticas e alimentação.

Na última semana o hospital recebeu verba de R$ 5 mil da prefeitura de Analândia. “A prefeitura de Rio Claro também nos ajuda”, acrescenta Numas. O “Bezerra” aceita doações de qualquer natureza, desde roupas usadas, alimentos, colchões, até produtos para reciclagem, que são utilizados nas oficinas, o hospital conta com veículo para recolher as doações. Quem quiser ser voluntário também pode entrar em contato com a casa de saúde pelo telefone

PROCURANDO AJUDA

Pessoas que precisam de ajuda devem procurar o CAPS de sua cidade, ou o Pronto Socorro. Lá será feito o encaminhamento necessário, tanto com medicamentos como direcionamentos para a família. Apenas em casos extremos será indicada a internação.

Z FOTOS
Bezerra1
Oficina de culinária

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Oficina de horta

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Festividades são comemoradas entre os pacientes

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Atividades físicas feitas no Lago Azul

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Doação da prefeitura de Analândia para o hospital, semana passada

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