Pesquisadores da Unesp Rio Claro descobrem soro contra picada de abelha, o primeiro no mundo
ESPECIAL
Se o filme “Meu Primeiro Amor”, de 1991, tivesse sido gravado hoje, o final da história não seria tão triste. O garotinho Thomas, vivido por Macaulay Culkin, provavelmente não morreria por picada de abelha. É o que prova uma nova descoberta feita por pesquisadores do Centro de Estudos de Insetos Sociais do Departamento de Biologia da Unesp de Rio Claro.
De acordo com um dos coordenadores da pesquisa, o biólogo Osmar Malaspina, a idéia de se desenvolver um soro contra a picada de abelhas já vem de longo tempo, desde a década de 90. “Naquela época a tecnologia não era suficiente para descobrirmos todas as proteínas do veneno. Antes, conhecíamos apenas cinco, mas já desconfiávamos que haviam outras”.
Durante muitos anos a pesquisa esteve parada, retornando em 2003. Em um processo de seis anos, os pesquisadores descobriram mais de 200 proteínas. Malaspina afirma que identificar, avaliar e estudar as proteínas foi possível devido às tecnologias atuais.
Até hoje, as picadas de abelhas eram tratadas com antiestamínicos, que causam inúmeros efeitos colaterais. A proposta do soro é combater o efeito das ferroadas sem efeitos colaterais.
O estudo é pioneiro no mundo: “Estamos saindo na frente de países como Estados Unidos e Japão, que são líderes em tecnologia. Isso é muito bom para o Brasil, para a Unesp e para Rio Claro também”, destaca. Para Malaspina, o soro será bem consumido pelos americanos, que sofrem demais com a alergia a ferroadas.
Os soros devem estar disponíveis a partir do ano que vem e devem integrar a rede pública em todo país. “A nossa intenção maior é salvar vidas”, conta Malaspina, que teve sua vida salva por um soro contra picada de cobra quando ainda era menino.
No Estado de São Paulo, em 2005, foram registradas 3490 incidências por ferroadas de abelhas, entre elas alguns óbitos. O pesquisador acrescenta que uma pessoa só descobre se é alérgica a picadas depois de ser picado. “Existem pessoas muito alérgicas, poucos alérgicas, e assim por diante. É difícil prever, há pessoas que podem sofrer um ataque anafilático com apenas uma ferroada”.
Quanto mais rápido receber o tratamento, menores são os riscos. Por isso, a dica é estar sempre preparado, procurar ter um soro sempre por perto caso decida se embrenhar pelo mato.
A pesquisa foi coordenada pelos professores Mário Sérgio Palma e Osmar Malaspina, da Unesp, em parceria com a USP, Incor e Instituto Butantan.
Atualmente, o Centro de Estudos de Insetos Sociais do Departamento de Biologia da Unesp de Rio Claro é referência no país e no mundo. Considerado o melhor no estudo e pesquisas de insetos sociais, como abelhas, formigas, cupins vespas. Hoje trabalham ali cinco professores, cem alunos e mais de cem projetos estão sendo desenvolvidos.
ABELHAS AFRICANIZADAS
O soro foi testado contra ferroadas da abelha africanizada, popularmente conhecida como a abelha de mel. Mas os pesquisadores comentam que também pode surtir resultados contra ferroadas de outras espécies de abelhas e vespas. “As proteínas não são as mesmas, mas são semelhantes”, diz Malaspina.
Poucos sabem, mas a abelha africanizada surgiu em Rio Claro. Resultado da união de duas espécies, a abelha européia (trazida para o Brasil pelos padres) e a africana (trazida em 1950 pelo professor Warwick Estevam Kerr, da Unesp Rio Claro). Em 1956, no Horto de Camacuã, surgiu a híbrida abelha africanizada, que tomou o mundo, chegando aos EUA em 1992.
Z FOTOS
Unesp3
Pesquisa desenvolvida na Unesp de Rio Claro é a primeira do mundo
Unesp1
Professor Osmar Malaspina é um dos coordenadores da pesquisa
Unesp2
A espécie abelha africanizada surgiu em Rio Claro em 1956
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
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