Renato Sachs é uma dessas pessoas que se destacam na multidão. Prestes a completar 80 anos, ele nem pensa em deixar a cabeça parar, exercita a memória diariamente com quebra-cabeças, jogos, relógios e passeios de bicicleta. “Eu me recordo de muita coisa, mas as datas, ai complica”, comenta o senhor que relata diálogos e detalhes de antigamente, mas custa lembrar-se do ano em que elas aconteceram.
Neto de avô alemão e avó portuguesa, ele nasceu em Santa Gertrudes pelas mãos da parteira Virgínia Scatolin, que chegou a atender três gerações. De família tradicional na cidade, hoje é o único Sachs que restou. Morando a vida toda no município, ele criou seis filhas, seis netas, um neto e um bisneto.
Grande conhecedor da rotina da cidade, não é difícil encontrar o sêo Sachs pelas ruas, em cima da bicicletinha preta com uma pena pendurada na frente. Sem abandonar a bicicleta, nem pensando em andar de carro, ele conta quando em Santa havia apenas três carros. “Antigamente só três pessoas tinham carro, o Zé Marigo, o Buschinelli e o Alfredo Pagni”.
Por vinte e três anos ele foi servente no posto de saúde e deste tempo guarda algumas peculiares recordações: “Eu costumava deixar um tabuleiro de damas dentro da gaveta da mesa em que eu trabalhava, quando não tinha nada pra fazer eu puxava o tabuleiro e ficava treinando jogadas”. A paixão pelo jogo era tanta que chegava a comprar livros e mais livros com técnicas para as partidas, treinava oito horas por dia e dividia a mesa do jantar com um prato de comida, um tabuleiro e livros.
“EU CHEGUEI A EMPATAR UMA PARTIDA COM O CAMPEÃO BRASILEIRO DE DAMA, PRA MIM FOI UMA VITÓRIA”.
Nesta época não era só de tabuleiro que Renato vivia; a outra paixão virou ofício. Ele se tornou o primeiro relojoeiro da cidade. Devido uma grande amizade com o tio de sua esposa, que era relojoeiro em uma cidade próxima, Sachs aprendeu o ofício e com o tempo muita gente o procurava para o conserto de relógios.
RELÓGIO ANTI-HORÁRIO
Além do conserto de relógios, ele também foi responsável pela criação de alguns modelos, digamos, curiosos, como: relógio em CD usado, calota de carro, tampa de privada, prato de alumínio, até mesmo em aro de ventilador (para ser possível ver as horas enquanto o ventilador funciona).
Entre tantas inovações há uma da qual Renato se orgulha: “Um dia eu consertei um relógio, mas os ponteiros iam um pouquinho pra trás e um pouco pra frente, eu disse, se quer ir pra trás agora vai mesmo”. E este foi apenas o início para a construção do primeiro relógio anti-horário de Santa Gertrudes. A procura pelo primeiro exemplar foi tanta que ele precisou até escrever seu nome para que ninguém pegasse.
Depois do primeiro o negócio ficou sério, foi necessário ir a uma tipografia mandar imprimir os números e fazer o relógio em larga esca. “Sempre tem alguém pra vir aqui em casa e pedir um modelo”. Além do convencional, o relógio anti-horário também foi produzido em calotas de carro e Cd’s.
A SAGA DO CUBO MÁGICO
Sempre interessado em desafios, Renato ganhou de uma das filhas um cubo mágico. O que parecia brincadeira de criança se tornou questão de honra para Renato: “Eu tentei muito montar o cubinho mágico, mas não conseguia de jeito nenhum, montava de um lado desmontava do outro, ai fiquei encafifado, decidi que eu ia montar de qualquer jeito”.
Ele procurou quem soubesse resolver o “enigma” do cubo em todas as cidades da região, em Rio Claro, Cordeirópolis, Limeira, Araras, Leme, e até Piracicaba, mas nada de encontrar. A solução veio quando uma das filhas viu um mágico na televisão que montava o cubo. Encantado, Renato entrou em contato com o canal de TV, pegou o telefone do mágico e agendou com ele algumas aulas. “Fui para Campinas ter cinco aulas com o mágico, aprendi a montar e comecei a ensinar as pessoas a montar aqui em Santa”.
A saga do cubo mágico levou Renato a se interessar cada vez mais por quebra-cabeças. A partir daí Sachs começou a confeccionar os próprios brinquedos utilizando madeira, arame e sucata. “Todo mundo que vê algum quebra-cabeça novo traz pra mim, ai eu tento reproduzir, faço em tamanho diferente, jeitos diferentes, só pra ir testando, ver se dá certo”.
Z FOTOS
Velhinho1
Renato Sachs foi o primeiro a fazer o relógio anti-horário em Santa Gertrudes em 2004
Velhinho2
Coleção de cubos mágicos, desafios são a maior paixão do santagertrudense
Velhinho3
Curioso, começou a fabricar os próprios quebra-cabeças com arame e madeira
quarta-feira, 20 de agosto de 2008
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário