Foi em 30 de dezembro de 1929 que Chie Yabuki chegou ao Brasil, ainda com nove anos. Veio a bordo de navio com sete irmãos e os pais (família Teramoto). Chie, que hoje atende pelo nome de Estela, é uma das mais velhas japonesas em Rio Claro. Aos 87 anos, conta trechos da história que viveu aqui e do outro lado do mundo. “Eu tento me lembrar de algumas coisas, mas tem pedaços que eu esqueci, tenho até vergonha, mas eu não consigo lembrar mesmo”, conta.
Apesar de esquecer alguns momentos do passado, Estela lembra-se de alguns detalhes da vinda para o país, das dificuldades enfrentadas, e carrega nas mãos calejadas e na pele manchada sinais de uma vida sofrida no campo. “Eu comecei a puxar enxada com 13 anos, trabalhava debaixo do sol, sem nada na cabeça, nada pra cobrir; do jeito que estava ia trabalhar”.
Foi pela promessa de uma vida melhor que o pai de Estela abandonou o posto de chefe da central elétrica no Japão, reuniu toda a família e partiu para o Brasil. “Quando chegamos meu pai queria voltar, mas não podia, né, não tinha dinheiro mais. Tivemos que ficar aqui mesmo”. Não só a família Yabuki foi uma das iludidas pelas promessas no Brasil.
ESCRAVOSPara pagar as dívidas da viagem, os japoneses eram obrigados a trabalhar como escravos por dois anos ou mais. O pai de Estela não aceitou o tempo exigido, trabalhou um ano e quatro meses e pagou uma multa para sair da lida. “Da época do cafezal eu lembro de levar a minha irmã mais nova, que nasceu aqui no Brasil, amarrava assim nas costas, como japonês faz né? E levava no cafezal para mãe amamentar, tinha que levar pelo menos uma vez por semana pra não desmamar. Antes de sair minha mãe deixava um pouco de arroz para os filhos que ficavam e levava um pouco para os filhos que iam com ela”.
Do tempo após a fazenda de café as lembranças são poucas. Estela guarda inúmeras lembranças do Japão, da neve, de como ia para escola, mas no Brasil elas se confundem. “Eu tenho até medo de falar e estar errado, mas a minha memória não é mais a mesma”. Para estudar não houve oportunidade. Ela lembra-se de passagens na escola do Japão, mas no Brasil, somente os irmãos mais velhos puderam estudar; ela sentava-se à mesa junto a eles enquanto estudavam, e aprendeu o básico para conseguir ler jornal.
Após sair da fazenda de café a família Yabuki passou por diversas cidades entre Pirassununga, Charqueada, Ipeúna, Santa Gertrudes e Rio Claro. As lembranças maiores ficam por conta do tempo passado em Pirassununga, na chácara de Fernando Costa, interventor federal do Estado de São Paulo.
“Fernando Costa e dona Anita Costa foram muito bons com a gente; foi a Anita Costa que deu nome português para todos nós porque era mais fácil de chamar. Ela também deu bastante vestido pra gente, que antes minha mãe desfazia kimono para fazer vestido brasileiro. A Anita Costa também queria batizar a gente, mas meu pai não sabia o que era e nem falou nada, só mexeu a mão assim não querendo nem saber”.
EM RIO CLARO
De como veio parar em Rio Claro Estela não se lembra, o que tem sido uma grande dificuldade para filhos e netos que estão tentando fazer um livro com a história da matriarca. A parte mais nítida de sua história é quando se casa, aos 16 anos. O casamento foi arranjado pelo pai, que uniu dois rio-clarenses a dois piracicabanos. A data do casamento foi marcada e ela não teve nem tempo de escolher.
Do casamento surgiram oito filhos, 22 netos, 20 bisnetos e quatro tataranetos. “Eu preciso contar no lápis às vezes, coloco no papel e vou contando é bastante gente”, todos espalhados pelo Brasil, alguns em São João da Boa Vista, Rosana, São José dos Campos e até no Japão, onde alguns netos foram tentar ganhar a vida.
Pensar em voltar para o Japão, nunca! “Já conheci lá, eu lembro de lá, não tem porque voltar agora”. Do Japão restaram as tradições, a comida, as músicas e os rituais que mantém todos os dias à frente de um pequeno santuário na mesinha do quarto. Os filhos chegaram a aprender um pouco mais da cultura, mas a partir dos netos muito foi se perdendo.
PASTEL
Muitos pensam que o pastel é típico japonês, devido ao grande número de nipos trabalhando no ramo. Estela foi proprietária da primeira pastelaria de Rio Claro, na Rua 5 entre Avenidas 1 e 3, mas não sabe de onde veio isso tudo. O mesmo para Sayuri Ogawa Kobayashi e Masao Kobayashi, proprietários da pastelaria Kiai, na Rua 8 entre Avenidas 13 e 15, que não sabem explicar como aprenderam a cozinhar pastéis.
A nissei Sayuri Ogawa Kobayashi conta as histórias que ouvia de sua mãe, que chegou ao país com sete anos de idade. “Ela (a mãe) conta que levou trinta dias de viagem no navio; muita gente ficava doente no caminho. Quando chegaram aqui no Brasil tiveram que trabalhar no café. Naquela época não podia falar japonês que era preso, tudo isso que mostra em filmes, televisão é verdade”.
Depois de trabalhar nas fazendas de café, em sítios plantando grãos, a mãe de Sayuri casou-se e mudou-se para Rio Claro, fundando a tradicional lavanderia da Rua 9 (avenidas 11 e 9), com mais de 50 anos de história.
Sayuri nasceu no Brasil e casou-se com Masao, os dois se conheceram no bairro Liberdade em São Paulo capital, ficaram um tempo fritando pastéis em feiras, até decidirem ter um lugar fixo e abrir a Kiai em 2001. Masao veio para o Brasil há 35 anos, devido um acordo com uma Cooperativa agrícola, que trazia japoneses para o plantio de grãos, depois mudou-se para São Paulo. Ainda com dificuldades no idioma português, marido e mulher conversam no idioma típico. A cultura perdura nos cartazes dentro da pastelaria com ideogramas orientais e no jornal em cima da mesa inteiramente escrito em japonês.
Z FOTOS RIO CLARO
JapaChie Yabuki, ou Estela Yabuki é uma das mais antigas japonesas em Rio Claro
Japa2Algumas lembranças foram esquecidas, mas alguns detalhes ainda perduram na memória
Japa4Chegada da família Teramoto no Brasil em 30 de dezembro de 1929
Japa5Estela na formatura das filhas
Japa10Casamento da irmã mais nova de Estela Yabuki
Japa7Sayuri Ogawa Kobayashi mantém a tradição ouvindo músicas japonesas e lendo jornais com ideogramas
quarta-feira, 25 de junho de 2008
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